Desde que mudei pro Copan, frequento todas as tardes a cafeteria do prédio. Sempre via um homem por volta dos 40 anos, com cara de estrangeiro, sempre de terno tomando seu cappuccino no balcão. Ele sempre me olhava como se quizesse dizer alguma coisa, mas nunca trocamos uma palavra naquela cafeteria.
Numa tarde, um novo cliente ligou me pedindo pra passar o fim de semana na chacara dele no interior. No sábado de manhã, como combinado, ele veio me buscar em casa e, para minha surpresa, era o homem da cafeteria. C., era um alemão que morava há 20 anos no Brasil, gostava de criar cabras na sua chacara e não bebia nem fumava, o que me pareceu muito peculiar para alguém nascido em Berlim. Isso é tudo que sei sobre ele.
Quando chegamos na chacara, ele me mostrou as plantações e os animais que criava. Andamos a cavalo e, apesar do frio, tomamos um banho de cachoeira depois do riacho perto dali. Não tivemos nenhum tipo de intimidade, nem beijo, nem mãos dadas, nem abraços e muito menos sexo.
À noite ficamos sentados em frente a lareira ouvindo blues e bebendo vinho (ele abriu uma exceção para o álccol naquela noite). Nos animamos e dançamos até as 3 da manhã. Não sei de onde ele tirava tanta energia, eu já não aguentava mais dançar, meus pés estavam calejando. Quando cansou, ele me levou pro quarto, tirou a roupa e pediu que eu também tirasse a minha e deitasse na cama. Logo depois ele se deitou ao meu lado me abraçando de conchinha e assim ficamos por longos minutos. Com a curiosidade aguçada, perguntei "você não está com vontade?" Ele respondeu "vamos dormir, Bárbara".
Quando acordei encontrei um rico café da manhã a meu lado com um bilhete dizendo "o dia de ontem foi essencial na minha vida, você nem imagina o que fez por mim".
Fiquei intrigada, tomei o café e um banho e fui procurá-lo pelo casa. Não encontrei, a empregada me avisou que havia um motorista me esperando pra me levar de volta pra casa e me entregou um envelope com o dinheiro combinado.
Fiquei a semana inteira pensando naquele homem. Queria conhece-lo mais, me sentia diferente como nunca tinha sentido por nenhum outro cliente, mas ele nunca mais me ligou nem apareceu na cafeteria.
Um mês depois fiquei sabendo que naquela tarde enquanto eu voltava pra casa, ele se matou na cachoeira da chacara com um tiro na boca.
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