Na minha profissão encontramos todo tipo de pessoas. Algumas podem nos parecer tão asquerosas que nos fazem querer sumir, mas também podemos encontrar pessoas encantadoras.
Um dos meus clientes fixos era D., um gay muito divertido. Quase toda semana ele pagava um programa só pra gente ficar conversando, ou sair juntos ou fazer qualquer coisa que não incluísse sexo. Ele tinha 47 anos e foi homossexual desde sempre, convivia há mais de 10 anos com o vírus da aids, ele já não andava muito bem, fazia o tratamento mas o seu estado estava se complicando e a expectativa de vida dele não era muito grande. Ele não tinha família nem amigos, só tinha a mim, a quem ele chamava de Grazinha. Depois de um certo tempo não tive mais coragem de cobrar pra estar com ele, ele se ofendeu mas concordou, apenas me dava alguns agrados materiais a cada saída nossa.
Ele era muito engraçado, me contava altas historias, viagens que ele já tinha feito pra países que ninguém se interessava em conhecer, os buracos onde se hospedava, a dificuldade de compreensão do idioma, as baladas, as festas. Eu ria o tempo todo, contava os dias pra chegar o programa dele. Ele era minha válvula de escape e eu a dele. Geralmente a gente passava a noite toda na casa dele bebendo e dançando. Quando ele estava melhor de saúde, a gente ia numa balada gls no centro, ele conhecia todos os funcionários e me apresentava como sua irmã. A gente dançava, ria e bebia, dançava, ria e bebia. Às vezes ele ficava com algum cara, iam pra casa dele e me deixavam sozinha na night. Eu fazia a alegria dos gays naquela balada, eles me adoravam.
D. além de ser divertido também era muito culto, me recitava Sartre e Proust, mas eu nunca entendia nada. Tentou me ensinar francês, mas não fui muito além do “comment tu t'appelle” e do “je t'adore”. Ele me ensinou muitas coisas, como me vestir, como me portar, como comer, me apresentou novas músicas, novos filmes, novos livros, novas histórias.
Ele nunca falava muito sobre si mesmo, eu sempre insistia, mas ele sempre mudava de assunto. Até que um dia ele passou mal, sua imunidade estava muito baixa por causa do vírus e ele foi internado. Passou dois dias na UTI e quando foi pro quarto me contou como se contaminou.
Ele me contou que sempre foi fiel a seus parceiros, nunca traiu, mas foi traído e muito. Ele foi casado por 8 anos com um homem. D. era extremamente apaixonado pelo companheiro mas este, por outro lado, só estava interessado no dinheiro de D. e o traía constantemente. Um dia D. cansou e se separou. Meses mais tarde descobriu ser soropositivo e muito provavelmente se contaminou graças as traições de seu antigo parceiro. Ele ficou tão desnorteado e com tanta raiva por ter sido usado por tanto tempo que começou a fazer sexo sem proteção com toda sorte de homens pelo puro prazer de passar a maldita a diante. Ele me contou que deve ter contaminado pelos menos uns 30, mas que estava arrependido e tinha pesadelos com esses homens moribundos por sua causa todas as noites.
D. passou mais alguns dias no hospital e foi liberado, mas sua saúde ainda requeria muitos cuidados. Ele contratou uma enfermeira e eu sempre que dava ia visitá-lo. Ele já não respirava como antes, precisava fazer inalação todas as noites, estava muito magro e cansado, suas pernas não o obedeciam mais, as vezes ele não as sentia e caía. Ele sabia que sua morte estava próxima e quis beber a vida até o último gole. Ele já tinha sido muito rico, mas estava quase sem dinheiro, só restava sua casa, seu carro e um apartamento no litoral. Ele vendeu tudo, comprou um apartamento pequeno no centro e trocou seu carro por um mais modesto e me disse que íamos viajar, seria sua última viagem e ele queria a minha companhia. Fomos primeiro a NY, ele me mostrou seus lugares preferidos, por onde já tinha passado, por onde tinha vivido, viu e me mostrou sua vida e seu passado diante dos nossos olhos. Era outono e todo fim de tarde, a gente ia no Central Park deitar embaixo de uma árvore e ver o sol se por. Depois fizemos o mesmo em São Francisco e então fomos pra Europa. Paris, Londres, Roma, Berlim, Viena, Moscou, Madri, Veneza e por fim, seu último desejo, conhecemos as ilhas gregas. É o lugar mais lindo que já vi, duvido que exista paraíso mais bonito nesse nosso planeta. Ali, lavamos nossa alma, nas águas do Mediterrâneo.
Quando voltamos, o estado de saúde de D. se agravou, fomos e voltamos várias vezes do hospital. Eu não tinha muito tempo pra ficar cuidando dele e a enfermeira se tornou essencial, se mudou pro apartamento dele e ficava 24 horas a seus cuidados. Ele não conseguia mais tomar banho sozinho, nem andar, passava o dia inteiro na cama, se alimentava por um cateter e usava sonda pra urinar. As sessões de inalação passaram a ser feitas 3 vezes ao dia. Era muito triste ver aquela cena. Eu sempre era otimista ao lado dele, ria, contava as historias de clientes, o que tinha feito na noite anterior, ele ria muito e eu também. Mas quando eu saía de lá chorava feito Madalena Arrependida. Eu gostava dele de verdade.
Na última semana do ano, ele foi internado às pressas, teve parada cardiorrespiratória, mas foi reanimado, passou 5 dias na UTI até que na noite de Réveillon ele se foi, virou orvalho, como ele mesmo dizia.
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